O Homem que Caiu na Terra (livro e filme)


É inegável o poder que certas histórias têm sobre nós. Admiro muito escritores capazes de escrever livros que nos causam impacto, deslumbramento, e nos colocam para pensar em questões que, mesmo sendo presentes no nosso dia a dia, podem tomar outras dimensões depois de certas leituras. O Homem que Caiu na Terra foi minha sexta leitura do ano, e sem dúvida alguma já é uma das melhores de 2019. Mesmo já tendo assistido ao filme, ele não me proporcionou nem metade de todas as emoções que tive lendo o clássico de 1963.

o livro de walter tevis


Thomas Jerome Newton é um extraterrestre. Ele caiu na Terra, ou melhor, foi enviado por seu povo, que está morrendo, para nosso planeta com uma missão: se estabelecer, construir uma nave, e trazer todos para cá. Thomas é um homem muito inteligente, extremamente frágil e excêntrico para os padrões humanos. Ao longo do livro vamos acompanhando toda sua luta para conseguir se adaptar, cumprir sua missão e resistir às tentações terrenas.
Era humano, mas não exatamente homem. Também como os homens, era suscetível ao amor, medo as dores intensas e à autopiedade.

Para começar, esse livro é fantástico! Ele chegou às minhas mãos graças a uma promoção da Submarino onde, num kit "Bowie Collection", viria O Homem que Caiu na Terra Labirinto + uma bag da DarkSide Books. Isso já faz alguns meses e, assim como a maioria dos livros de que gosto muito, me arrependo de não ter lido antes!

Essa obra de Walter Tevis é quase como uma declaração a todas as dúvidas de todas as pessoas na Terra. O que é ser humano? O que verdadeiramente nos torna humanos? Thomas Jeromy Newton é uma pessoa pálida, magra, alta, com ossos tão frágeis como se fossem feitos de vidro, e que ao longo de toda sua trajetória se vê num conflito consigo mesmo, temendo ter se tornado "humano demais", e ao mesmo tempo tentando se adequar a nova realidade. Não é isso que todos nós fazemos a cada dia de nossas vidas? Tentamos nos adaptar, nos entender, criar um equilíbrio entre aquilo que somo e aquilo que o mundo espera de nós?

Estou com medo agora. Tenho estado com medo de todos os tipos de coisas o tempo todo. Fui exaurido neste planeta, neste planeta monstruoso, lindo e aterrorizante com todas as suas criaturas estranhas e sua água abundante, e todos os seus humanos. Agora tenho medo. Terei medo de morrer aqui.
Assim como Thomas, nós somos postos na Terra, numa realidade com regras, padrões de comportamento e de aparência, coisas boas e coisas ruins. Tudo isso pode se tornar demais para algumas pessoas. É impossível não fazer um paralelo entre nosso extraterrestre e cada uma das pessoas nesse planeta que não conseguem de adaptar a tudo que já está imposto como verdade absoluta, como certo. Parafraseando o próprio livro, a maioria dos homens vive em um desespero silencioso.

É impecável a forma como o autor trabalha os personagens (porque há um foco em outros dois personagens), seus medos, angústias e inseguranças. A narrativa é fluída, e em momento algum eu me senti entediada, seja por estar lendo diálogos profundos, ou "dentro" da cabeça de algum deles. É aquele tipo de livro que eu senti vontade de reler assim que acabou, pois me senti encantada pelo protagonista, e eu queria continuar naquela conexão com seus pensamentos, tentar ajudar de alguma forma.

O Homem que caiu na Terra é uma leitura que eu considero necessária. Claro, é uma ficção científica, mas, acima disso, nos coloca para pensar, não apenas na incapacidade que algumas pessoas têm de lidar com o mundo, mas também sobre a própria questão da humanidade. Será que nós realmente temos consciência do quanto tudo isso é frágil? Como a gente lida com quem está ao nosso lado? Gostaria de ter respostas para essas perguntas.


Falando um pouco sobre a edição, ela trás elementos que combinam perfeitamente com a história, e é quase impossível não associar com o filme: as letras padronizadas, os detalhes em laranja, e o próprio David Bowie na capa são homenagens lindas! As páginas são porosas e com uma diagramação confortável. Dentro de todos os livros (pelo menos de todos que vi até agora), além do marcador de fita, vem também um de papel triangular com uma fotografia do Bowie. ♡

david bowie é thomas jerome newton


É impossível dissociar a imagem do Senhor Newton com a de David Bowie, que interpretou o visitante intergaláctico com maestria. Eu só conseguia pensar nele, e isso foi fantástico, pois David Bowie é um dos meus cantores favoritos! Mas, apesar de gostar bastante do filme num geral (fotografia, trilha sonora, elenco), não posso negar que gostei muito mais do livro.

A premissa é basicamente a mesma, mas a produção cinematográfico incluiu algo que não existe na obra original: sexo. No livro, Thomas é extremamente reprimido, tímido e reservado. No filme ele é assim também, mas acaba se envolvendo com uma personagem, envolvimento esse que não existe originalmente de forma nenhuma. As cenas de sexo e a nudez podem ter me incomodado um pouco, mas nada que realmente tenha atrapalhado o filme.

Existem algumas falhas de roteiro que podem deixar as coisas confusas às vezes, mas, no geral, o filme é uma mistura de arte com ficção científica. O vazio existencial e as questões que angustiam os personagens estão ali. Bowie, com seus rosto doce, consegue passar exatamente o que Thomas sente: impotência, a incapacidade de lidar com as próprias emoções. O final, assim como o do livro, é um tanto melancólico, e até nos faz pensar que o próprio Bowie era Thomas Jerome Newton preso aqui nesse planeta imundo.

CAI NA TERRA E PRECISO DE AJUDA


Gravei esse vídeo uns dias depois de ter terminado de ler o livro. Pensei bastante se o postaria ou não, pois não sei se fui suficientemente clara no que realmente quis dizer. Mas decidi postar mesmo assim, pois foi um monólogo muito sincero, não apenas com quem acompanha meu canal, mas também comigo mesma. Espero que ele seja um bom complemente para a resenha... ou a resenha seja um complemente pra ele hehe. 

Não importa quantos aspectos não humanos eles encontrassem, sempre seria mais plausível que ele tivesse um tipo de anomalia física, mutação, variação ou aberração do que ter vindo de outro planeta.
Fiquei adiando ao máximo escrever esse post, pois não sabia bem como passar para você tudo que essa história me proporcionou. Tomara que eu tenha conseguido, e que vocês tenham gostado de tudo. Quem se interessou a ler, ou a pelo menos ver o filme? (compre aqui)

The Heart of Betrayal (Mary E. Pearson)


"Princesa, este é o meu reino, não o seu, e tenho maneiras de fazer você falar." Essa frase está escrita na contracapa de The Heart of Betryal, e também é dita logo nos primeiros capítulos por um dos personagens. Não nego que, assim que a li, antes mesmo de abrir o livro, fiquei extremamente tensa e receosa sobre o que eu encontraria nesse segundo volume d'As Crônicas de Amor e Ódio. Não de um jeito ruim! Eu fiquei mesmo foi assustada com o que poderia acontecer.

Para quem não conhece os livros da Mary E. Pearson, todos os eventos desse universo começam em The Kiss of Deception com a Lia, uma princesa que está fugindo de um casamento arranjado. Após sua fuga (e isso não é spoiler), o príncipe abandonado no altar decidi ir atrás dela. Mas acontece que um assassino de um outro reino é enviado para matá-la. O mais legal de tudo é que a gente não sabe quem é o Assassino e quem é o Príncipe. E podem ficar tranquilos que eu não vou revelar isso nessa na resenha; na verdade, vou tentar dar o mínimo de spoiler possível.


Após os eventos finais do primeiro livro, Lia se torna prisioneira do reino de Venda e do Komizar, que é o governante daquele lugar, e também o ~personagem mais odiado de todos os tempos~ e que disse aquela frase que está no início da resenha. O Príncipe também está lá (sim, o que foi abandonado no altar!) e sendo mantido vivo apenas por conta de mentiras que podem ser descobertas a qualquer momento. Os dois tem de arranjar formas de se manterem vivos pelo máximo de tempo possível (pelo menos até um certo resgate chegar).

Basicamente é isso que tenho para dizer sem revelar maiores detalhes. O livro se passa todo em Venda, e nós vamos descobrindo junto com a Lia que aquela terra não era habitada por "selvagens" como sempre foi reforçado nos reinos de Morrighan e Dalbreck. Lá vivem pessoas boas, com crenças, sentimentos, e que estão fazendo o possível para sobreviver. Mas, claro, sempre tem algum que destoa, que no caso é o Komizar e sua corja (NÃO SOU CAPAZ DE EXPRESSAR COM PALAVRAS MEU ÓDIO POR ESSE HOMEM!)

Confesso que gostei bem mais desse segundo livro justamente por carregar muita tensão. Você sabe que alguma coisa grande e ruim e pode acontecer a qualquer momento, você sabe que vai acontecer, e o livro inteiro vai te preparando pra isso. E, mesmo assim, eu fiquei sem fôlego quando o momento chegou.


Algo que não posso deixar de falar é da força feminina que esse livro carrega. Seria muito simples dizer que a Lia é uma protagonista forte (não que ela não seja, na verdade ela é incrível) caso fosse a única mulher a aparecer durante o livro todo no meio de um monte de homens. Princípio de Sumerfette, sabe? Mas acontece que têm várias outras mulheres, que não só a ajudam, como também se mostram muito fortes, com histórias e sofrimentos próprios.

Quanto aos outros personagens, nós conhecemos mais do passado de cada um, passamos a ver muito mais coisas de seus pontos de vista. Nós conseguimos sentir o que eles estão sentindo, e isso se estende para a Lia também: medo, raiva, uma vontade gigantesca de fazer alguma coisa pra mudar o que está acontecendo... o livro todo é um grande redemoinho de sentimentos!

Ah, sem falar que muito mais do passado daquela terra inteira é revelada, seja através d'Os Últimos Testemunhos de Gaudrel, da Canção de Venda ou dos Livros do Texto Sagrado de Morrighan. A autora criou uma história que tanto está á parte quanto se interliga completamente com tudo que Lia está vivendo naquele momento, em especial sobre o Dom que agora ela sabe que tem.


The Heart of Betrayal é um livro esplêndido, uma verdadeira ode ao amor e a toda coragem que existe em cada um de nós. Lia tem de tirar forças de onde ela nem sabia que tinha porque sabe que aquilo é necessário para sobreviver, e não é isso que muitos de nós acabamos tendo de fazer? É uma história que conseguiu me emocionar, me deixar tensa e me fazer torcer por um casal como há muito tempo não fazia!  ♡

Assim que terminei a leitura eu me sentia impactada, totalmente induzida a pegar o terceiro livro pra ler, mas também com uma vontade imensa de reler tudo de novo só para eu me acostumar com a ideia de que tudo aquilo tinha acontecido. Foi uma sequência digna para um livro como The Kiss of Deception que já era incrível.

VALE A PENA TER SONHOS QUE não SEJAM GRANDIOSOS? 


Sobre a edição, acho que nem preciso comentar que eu adorei, né? Os livros da Mary E. Pearson são alguns dos mais famosos da DarkSide Books e do selo darklove. A capa do segundo livro e toda a edição em si é minha favorita de todos os outros livros. Amo o destaque o vestido da Lia recebe em meio a todo o azul que, pra mim, significam toda a tristeza e melancolia daquele lugar! A folha de guarda e o marcador de fitinha também são vermelhos.


Uma coleção linda dessas! Tenho muito orgulho de ter todos esses lindinhos na estante. Qual é o favorito de vocês? Quem ainda não leu, mas tem curiosidade? Vocês podem ler a resenha de Crônicas de Morrighan aqui, e comprar todos os títulos aqui.

Logo menos falo mais dos outros livros! L, ♥️

Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy


O comportamento homicida daqueles que praticam um assassinato, depois outro e mais outro de forma bastante repetitiva. Essa foi a descrição que o agente especial do FBI Robert Ressler usou para o termo serial killer. Até o início dos anos 70 essa expressão não existia, ou, melhor dizendo, não era usada. Robert "patenteou" o termo depois de fundar a Unidade de Ciência Comportamental (Mindhunter pra quem está atualizado com as séries da Netflix). 

Um dos serial killers que, de certa forma, ajudou Ressler na sua pesquisa foi Ted Bundy, e um dos últimos lançamentos da Netflix foi a série Conversando com Serial Killer: Ted Bundy (que se Deus o universo quiser vai ter segunda temporada). Eu assisti, e, mesmo estando focada apenas em livros aqui no blog, resolvi falar sobre ela, e no final do post vocês vão entender como essa série se associa a um livro especificamente.


Theodore Robert Cowell, mundialmente conhecido como Ted Bundy, foi um dos assassinos mais temidos dos Estados Unidos. Ele foi acusado de matar mais de 30 mulheres de maneira brutal. Não vou falar detalhadamente sobre cada caso, até porque até hoje isso é um tanto incerto (o exato número de vítimas), mas preciso comentar o quanto isso é assustador.

A série original da Netflix é em formato de documentário, mostrando entrevistas com o próprio Bundy, imagens verdadeiras e montadas dos 60's, 70's e 80's (ponto para a fotografia!), e do próprio julgamento, e estas são com certeza as mais perturbadoras, pois são imagens reais e que mostram perfeitamente o quão insensível e narcisista era Ted Bundy. Os sorrisinhos que ela lança em direção às câmeras nos causam raiva e repulsa, pois é como se ele estivesse levando tudo na brincadeira. Ele se achava tão inteligente que insistiu em servir de advogado de defesa em seu próprio julgamento, transformando tudo numa grande comoção midiática e um palco para a seu egocentrismo.

Algo de que gosto muito de saber quando estudo casos de assassinos em série é sobre a infância deles. O fato de eu ser estudante de psicologia e fascinada pela psicanálise sempre fazem com que eu me interesse por isso. Bom, eu senti falta de um pouco mais disso na série: esses detalhes da vida de Ted Bundy que podem ter contribuído para que ele se tornasse daquela jeito. Mas eu entendo que talvez a intenção fosse exatamente deixar as coisas mais objetivas e focadas realmente na "carreira" sanguinária dele (não sei até que ponto isso é bom, mas enfim...).


Algo muito peculiar sobre esse caso é como algumas pessoas viam Ted Bundy. Muitas mulheres acreditavam que ele era inocente! Psicopatas são pessoas com personalidades agradáveis e encantadoras, além de muito espertos. é nítido o quanto ele usou disso para (tentar) manipular o júri, a mídia e as pessoas que estavam acompanhando o julgamento. 

No geral, é uma série documental muito boa! Pode se tornar um pouco maçante para quem não está acostumado com esse tipo de conteúdo (têm quatro episódios, mas eles são bem longos). Mas eu gostei, e gostei muito. O último episódio é de longe o mais tenso. Mesmo sem querer eu acabei me sentindo como se estivesse vendo a um filme.


Bom, aparentemente ainda veremos muito de Ted Bundy esse ano. Além da série falada nesse post e do filme Exteremely Wicked, Shockingly Evil and Vile (trailer) com Zac Efron que será lançado em breve, a DarkSide Books vai publicar o livro Um Estranho ao meu Lado. O livro foi escrito por Ann Rule, que conheceu Bundy em um centro de atendimento de prevenção ao suicídio sem fazer ideia de que aquele rapaz simpático que sentava-se ao seu lado se tornaria um dos assassinos mais famosos e temidos da história. O livro está em pré-venda no site da DarkSide, junto com a fita Crime Scene amarela e frete grátis!

Espero que tenham gostado do post. Nesse mês de fevereiro vou me dedicar mais a assuntos de criminologia, então é possível que eu volte a falar sobre serial killers, psicopatas e afins.