O horror perfeito de Aurora nas Sombras


Já faz alguns dias que estou adiando o momento escrever essa resenha. Antigamente o processo de escrita era bem menos demorado do que o de fotografar os livros, mas hoje em dia tenho percebido em mim a necessidade de pensar e refletir por um tempo sobre as histórias que leio antes de me sentar em frente ao computador e escrever. De qualquer forma, fazia alguns meses que eu não me via confrontada por um livro tão complexo e perfeito como é Aurora nas Sombras de Fabien Vehlmann e do casal Kerascöet.


Com ilustrações finas e delicadas e se autodeclarando um remetedor de Alice no País das Maravilhas, Aurora nas Sombras nada tem a ver com a com as coisas fofas que Alice encontra no País das Maravilhas, e definitivamente não é um livro para crianças, embora seja tão carregado de reflexões quanto o clássico.

O livro começa com nossa protagonista, Aurora, se preparando para receber um convidado para um chá em sua casa. Mas, após um tempo, o lugar onde se encontram se torna estranho, barulhento e instável, e por isso ela decide ir embora. E, logo nas primeiras páginas, percebemos que Aurora e muitas outras "pessoas" estavam vivendo dentro de um garotinha que está morta! E essas pessoas por quem Aurora se vê rodeada, apesar de aparentar serem boas, são diferentes, cada qual com sua personalidade, dispostos a tudo para esconder a maldade que carregam dentro de si e prontos para fazer qualquer coisas para sobreviver no novo ambiente em que se encontram.

Tem uma frase de que gosto muito: ninguém sabe o que é capaz de fazer até as coisas chegarem ao limite. Acredito que ela defina muito bem o que é Aurora nas Sombras. Os personagens são todos muito característicos. São pequenos retratos caricatos de sentimentos que existem dentro de cada um de nós. Perversidade, inveja, mentira, maldade, inocência, egoísmo... Tudo isso está presente em todo ser humano, mesmo que alguns neguem até a morte.


Muitas, mais muitas teorias podem ser feitas em cima dessa leitura. Em muitos momentos eu voltava e relia o que tinha acabado de ler só para ver se eu tinha entendido bem. É tudo muito caótico nesse cenário, e podemos até custar a aceitar que certas coisas estão acontecendo. As aparências bonitinhas dos personagens nada amenizam o quão pesadas e grotescas são algumas cenas. É um terror psicológico perfeito, que me fez ir dormir pensando em tudo aquilo e reformulando diferentes interpretações.

Eu não consegui não julgar algumas atitudes tomadas ao longo do livro, mas, ao mesmo tempo, fiquei me imaginando vivendo algo parecido. Como eu reagiria? Como as pessoas ao meu redor reagiriam se fossem colocadas numa situação extrema, onde ser egoísta e calculista se faz necessário para continuar vivo? Ao meu ver, um livro em quadrinhos e com menos de 100 páginas que consegue criar todas essas reflexões não é menos que excepcional.


Foi uma leitura rápida, instigante, angustiante e incrível! Eu tenho certeza que cada pessoa que o ler vai interpretar de uma forma diferente, e também que uma releitura futura minha vai me render novos questionamentos e novas reflexões. O final em aberto só nos faz ficar pensando ainda mais na personalidade da própria Aurora, que ao longo de toda essa aventura se mostra solicita e doce. Mas será que as pessoas sempre são o que parecem ser?


O trabalho gráfico da DarkSide Books está impecável. O livro tem um tamanho maior que o convencional, verniz localizado na capa e uma folha de guarda com bolinhas azuis combinando com o vestido da Aurora ♡ e, para quem comprar pelo site da Caveira, vai receber também um caderninho de anotações com folhas amareladas.

Quem ficou curioso pela leitura? Se você já leu, qual interpretação tem das coisas que aconteceram?

Príncipe Drácula (Kerri Maniscalco) | Uma ameaça sangrenta se esgueira na escuridão...


Uma das coisas que a minha "eu leitora" estava precisando era uma série como Rastro de Sangue: que me empolgasse, que me deixasse ansiosa pelos próximos lançamentos, e que me fizesse torcer pelos personagens (e shippar também hehe). O primeiro volume da série, o Jack, o Estripador, eu li no ano passado, e desde então eu ficava imaginando desfechos para a história da Audrey Rose. E quando eu soube que no novo livro ela iria investigar assassinatos no castelo do Drácula, eu fiquei muito animada por essa leitura!


No primeiro volume somos apresentados a Audrey Rose, uma jovem nada tradicional do século XIX que estuda medicina forense, e acaba se vendo envolvida nas investigações de Jack, o Estripador, ao lado de uma das figuras mais excêntricas de toda Londres: Thomas Cresswell. Bom, mas passados os eventos do livro anterior, vamos para Príncipe Drácula. Ah, e acho bom ressaltar que não necessariamente você precisa ter lido o primeiro livro para entender o segundo, embora eu recomendo muito que o leia!

Audrey Rose e Thomas embarcam no Expresso do Oriente (meu sonho) rumo à Romênia para estudar medicina forense em uma das melhores academias da área. No entanto, o que poderia ter sido uma estadia ótima, com os dois estudando um assunto pelo qual são apaixonados, superando o caso de Jack, e flertando da melhor forma possível, acaba se transformando numa nova investigação. Corpos empalados ou com todo o sangue drenado estão sendo encontrados. 


Antes de mais nada me deixe dizer que foi incrível a experiência de ler esse livro intercalada com a leitura de Drácula! E, bom, esse é definitivamente um dos melhores livros que li em 2019 até agora. Kerri Maniscalco tem uma forma tão peculiar de montar o seu mistério (bem Sherlock Holmes!) que faz com que a gente se sinta totalmente imerso nele, além de ter uma escrita que me fez sentir que estava lendo um livro realmente daquela época, escrito naquela época.

Além do foco principal que é o mistério do possível vampiro, o livro têm outros assuntos paralelos que são muito atuais: empoderamento e a liberdade da mulher, homossexualidade, e a discussão sobre bem e mal.

Aqui temos um aprofundamento muito maior dos personagens, em especial do Thomas (que é de longe um dos personagens mais apaixonantes que eu já conheci nesses anos de leitora); conhecemos mais do passado dele, seus sentimentos, emoções e opiniões. Também vemos o quanto o caso de Jack, o Estripador afetou Audrey Rose, a ponto de ela pensar em desistir da sua carreira. Existem outros personagens secundários na história muito bem trabalhados.
A sociedade, como um todo, é inacreditavelmente obtusa. Se uma pessoa simplesmente se volta para outrem em busca de suas opiniões, perde a capacidade de pensar por si mesmo de forma crítica. O progresso nunca seria feito se todos tivessem a mesma aparência, pensassem do mesmo jeito e amassem da mesma forma.

Eu amo como a autora mescla acontecimentos e figuras reais com outras fictícias. Nos faz acreditar que tudo aquilo aconteceu de verdade. Ah, e diferente do primeiro livro, nesse eu não consegui adivinhar quem é o assassino antes das páginas finais (que são, de longe, as mais legais do livro!). Acontece que tudo está nos pequenos detalhes, então é bom ler esse livro prestando atenção de verdade.


Eu realmente não sei escolher qual dos dois eu gosto mais. Príncipe Drácula foi uma continuação digna para um livro que já era deveras fascinante! Eu amo os personagens e a forma como eles se relacionam, amo os cenários, os mistérios, e a narrativa inteligente e nada infantil. Tenho certeza que a autora não vai decepcionar nos próximos volumes, e também espero que a editora não demore a lançá-los aqui no Brasil *-*

E, além das histórias, outra coisa que eu não consigo escolher é de qual edição eu gosto mais! Embora ache a capa de Príncipe Drácula mais bonita por conta da paleta de cores, eu adoro como as edições são parecidas e diferentes ao mesmo tempo. Elas ficam lindas lado a lado! As folhas de guarda são dois mapas, e ao longo dos capítulos vamos encontrando imagens que só tornam a imersão no livro ainda melhor. Obrigada pelo mimos, DarkSide Books!

Eu não precisava pensar, simplesmente agir. Este era um espécime humano que precisava ser estudado, isso era tudo. Pensamento sobre o sangue, a par Body e a desafortunada eu da dívida era um portas que se fechava simultaneamente em meu cérebro. O restante do mundo, meus medos e minha culpa se dissipavam.

Eu realmente espero que esse post tenha deixado vocês com vontade de ler esse livro porque ele é incrível. E se alguém já leu algum dos dois livros, por favor, vamos ser amigos e falar sobre o quão perfeitos eles (e o Thomas) são hehe. Vocês podem comprá-lo pela Amazon ou pelo site da DarkSide Books, e lembrando que quem comprar pelo site da Caveira vai ganhar um sketchbook temático. ♡

O Transtorno Obsessivo Compulsivo de N. (Stephen King + Marvel Comics)


O Transtorno Obsessivo Compulsivo é caracterizado pela presença de obsessões e/ou compulsões: pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes acompanhados de comportamentos repetitivos ou atos mentais que o indivíduo se sente na obrigação de executar. Na graphic novel N., baseada em um conto de Stephen King e adaptada por Marc Guggenheim e Alex Maleev, o TOC é tratado como um plano de fundo para retratar a relação entre um analista e as obsessões de seu falecido paciente.


N. sofre de transtorno obsessivo compulsivo severo. Para quem tem essa doença, as obsessões não são prazerosas; são intrusivas e indesejadas, causando sofrimento e ansiedade. E é dessa forma que ele se sente, o que o leva a procurar ajuda de um profissional. O Dr. John Bonsaint é quem o trata e sente-se, de certa forma, intrigado pelas histórias sobre sete (ou oito?) pedras, outrora supostamente vistas por seu paciente nas Terras de Ackerman, no Maine, e as quais, segundo ele, são responsáveis por um portal para outra realidade.

Mas, após a morte de N., Bonsaint se vê ele próprio preso em um redemoinho de obsessões envolvendo aquela região misteriosa sempre citada nas sessões. Ele começa uma investigação, disposto a entender a raiz do que levou N. a cometer suicídio, mas sem ao menos refletir sobre as consequências que trarão para si mesmo...


Essa foi sem dúvida uma das leituras mais diferentes que fiz esse ano. Nunca tive contato com histórias do Stephen King e, quando o livro chegou em minhas mãos, eu não sabia muito bem o que esperar. Só fui descobrir depois que realmente comecei a ler, e devo dizer que foi uma surpresa!

N. é uma história angustiante e sufocante. Você consegue sentir toda a agonia e sofrimento pelo qual os personagens passam, pois nem eles e nem o próprio leitor sabem exatamente o que temer e o que esperar. É como se nós fossemos arrastados para aquelas loucuras e obsessões, aparentemente "sem fundamento". A sanidade de N. estava por um fio, a ponto de ele começar a acreditar nas forças positivas de números pares e ímpares. Com o passar da história, vamos percebendo que tudo pode vir a se tornar um ciclo sem fim, onde, de paciente-e-analista em paciente-e-analista, várias pessoas podem ser levadas a acreditar no poder que aquela formação rochosa, em tese, possui (e eu digo "em tese" porque, a meu ver, fica por conta do leitor acreditar se tudo é real ou não).

Eu não li o conto original (quero!), mas posso falar que as ilustrações (que têm um traço muito realista e característico de quadrinhos) contribuem para esse sentimento: elas são sombrias, assustadores e até mesmo grotescas. Há um medo psicológico muito grande permeando cada página, e que nos prepara para algo maior.


Foi uma leitura que me tirou da minha zona de conforto, que me deixou assustada, curiosa e sedenta por mais. Duas coisas que contribuíram para que a minha experiência fosse ainda melhor foram o cenário que eu escolhi para lê-lo (dentro de um ônibus, voltando para a casa à noite), e ter assistido os mobisódios feitos pela Marvel Comics (esses mini-episódios são basicamente a HQ em formato de vídeo).


A graphic novel foi lançada pela DarkSide Books, e a edição é bem diferente das que a editora geralmente lança. Ela tem uma luva preta com um N bem grande e que "esconde" a verdadeira capa, o que pode ser muito significativo, tendo em vista que a história toda se baseia em mistérios. Vocês podem comprar pelo site da Caveira ou pela Amazon.

Espero que tenham gostado da resenha e que ela tenha deixado vocês curiosos para ler. Ah, para falar sobre TOC aqui no post eu fiz uma pesquisa no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais. Acho importante ressaltar que a história da HQ deixa claro que TOC não é uma bobagem ou pura e simplesmente gostar das coisas arrumadas.