Sobre ter relido A Seleção cinco anos depois


Aos 15 anos eu era uma pessoa totalmente diferente do que sou hoje. Muitos dos meus ideais e pensamentos mudaram ao longo dos anos, e têm coisas que, sinceramente, eu até me envergonho de já terem passado pela minha cabeça. Mas, ao mesmo tempo, eu faço o possível para não odiar aquela Luh de 15 anos. De certa forma, ela contribuiu para que eu me tornasse quem sou hoje. Não uma pessoa perfeita, mas uma pessoa melhor! Os livros que eu li na época me ajudaram com isso também, me ajudaram a construir um certo caráter e a ser corajosa. Com alguns, quando eu volto a reler, consigo perceber que minhas opiniões e impressões não mudaram: eles continuam sendo tão maravilhosos e incríveis como foram anos atrás.

Só que, há uns meses, eu passei pela experiência de reler uma série (ou quase toda a série) que já foi uma das minhas favoritas. Eu cultivava na minha memória doces dias de leitura, me encantando com o romance água com açúcar e com aqueles cenários majestosos que pareciam ser perfeitos. Estou falando de A Seleção da Kiera Cass. Na época esses livros eram o que de melhor eu poderia encontrar, e eu enxergava só o que eu queria ver. Só a parte bonitinha. Sem querer desmerecer o trabalho da autora, mas, depois que reli, aquelas memórias fofas foram substituídas por outra coisa: decepção!

Se você não conhece a história, eu vou dar um pequeno resumo: é um distopia onde o que governa é uma monarquia (eu não vou entrar no mérito de que política é discutida de forma bem rasa nessa história). Os Estados Unidos se tornou uma país chamado Illéia e é divido em oito castas, sendo a mais baixa de mendigos, e a mais alta a da família real. O livro gira em torno de America, uma garota da casta cinco, que tem um namoradinho de um casta mais baixa e que está tentando convencer a sua mãe de que ela não quer participar da Seleção, que é basicamente um concurso onde 35 garotas são mandadas para o palácio para competir pela mão do príncipe. E obviamente ela vai acabar indo participar desse reality show, que por sinal é transmitido para o país inteiro!

Falando das partes boas, o romance continua ali, e ele pode até ser bonitinho, mesmo com o triângulo amoroso enrolado e os personagens chatos e arrogantes além da conta. Mas o que me fez perder o encanto por essa série não foi o romance ou personalidade chata dos envolvidos. Foram os diversos problemas socioculturais que o livro apresenta. Em minha defesa, aos 15 anos eu vivia numa bolha a respeito de questões sociais, embora elas já fossem discutidas naquele ano.

Primeiro que o livro é claramente sobre uma competição feminina, algo que hoje eu abomino, ainda mais levando em conta que o livro é escrito para pré-adolescentes (leia-se: meninas) de 12 ou 13 anos, ou seja, pessoas que nessa época estão formando seu caráter. O livro torna algo quase normal que garotas se alfinetem, se ameacem e até se agridam por causa de um homem (e um homem que nem é tudo isso, eu já deixo clara essa minha opinião). 

O segundo ponto que me incomodou muito é a respeito da quantidade de gente padrão nesse livro. Não tem um personagem negro. Não tem um personagem que seja da comunidade LGBTQI. Todas as garotas, desde as selecionadas até as criadas são brancas, são magras e são indiscutivelmente muito lindas. Todos os homens são brancos, são altos, são fortes e são muito lindos. Em resumo, é um livro que reforça padrões de beleza inalcançáveis e que estão já há um tempinho ultrapassados. E não é como se o livro tivesse escrito há 50 anos...

Bom, eu poderia falar de diversos outros pontos. Do machismo velado ao longo das páginas, desde o fato de as garotas só usarem vestidos, até o fato de estarem buscando a aprovação de um homem. Do empoderamento de mentirinha da America, que desde o começo tenta se mostrar diferente e forte e avessa à competição, mas que participa ativamente dela e, anos depois, coloca a própria filha numa competição. Do relacionamento abusivo entre a rainha e o rei, e que é bem romantizado num conto de um dos livros extras. Ou até mesmo da tal revolução que foi prometida, mas que é tratada de forma rasa, fácil como estalar os dedos.

Se você não leu esses livros, preciso dizer que esse não é um post que vai tentar te fazer mudar de ideia. Leia; mas leia ciente de tudo de errado que essa história carrega. Se você, assim como eu, leu quando mais novo antes de desenvolver algum senso, das duas às uma: ou você lê e percebe a problemática, ou não lê e fica com as lembranças fofas. Caso já tenha relido, compartilhemos dessa frustração! E, detalhe: eu gosto dos livros, eles me entretem, mas eu não consigo ler ou reler qualquer livro hoje em dia sem reparar e criticar certas coisas. E, Kiera Cass, não dá pra defender muita coisa! E eu espero do fundo do coração que, se o filme realmente acontecer, ele tenha o mínimo de representatividade e correção de certos pontos.

16 comentários :

  1. Eu não tenho interesse nenhum em ler A Seleção, para ser bem honesta, mas te falar que os padrões são padrões, esse debate surgiu há muito pouco tempo. A Kiera escreveu antes da explosão de realidade que a gente toma hoje como ponto de partida, tudo o que você falou, nos livros de, pelo menos, 10 anos atrás, já tinha.

    Então, eu entendo a sua revolta - e por isso tenho 0 vontade -, mas não dá pra acusar a autora por conta disso, infelizmente. O bom de ler esses livros, claro, é entender o que não gostar e o que não aceitar e isso já é evolução surpreendente. ♥

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  2. Essa obra não é o meu nicho, então não tenho interesse de lê-la, pena que não foi uma experiência boa para você. É muito ruim quando a obra não atende nossas expectativas, mas outros títulos melhores de outras obras virão.

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  3. Acho que ao revisitar livros, filmes, séries, até músicas que gostávamos anos atrás, sempre corremos o risco de nos decepcionarmos. Nós estamos sempre mudando e muitas coisas que já gostamos podem deixar de fazer sentido para nós, simplesmente porque não combina mais com nossa personalidade. Por outro lado, o que aconteceu com você nesse caso é até bom, porque mostra que você evoluiu, ampliou sua visão e percebeu situações problemáticas que antes passavam batido. Quanto a esse livro em específico, a temática não me chama atenção, então nunca li. E, felizmente, não consigo lembrar agora de uma releitura que eu tenha feito e que tenha me decepcionado. Já aconteceu algumas vezes com filmes, programas de TV, mas com livros eu acho que não.

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  4. Olá! Eu estava relendo os livros da minha estante já que a meta é não comprar novos livros. Tenho essa coleção de livros e é um xodozinho, eu amei a história. Tem muito tempo que li mas, espero em breve poder reler. Entendo seu ponto de vista mas, na época essa história ficou entre meus livros favoritos.
    Beijocas.

    https://www.parafraseandocomvanessa.com.br/

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  5. Esse não é o tipo de livro que me atrai, aliás livros nesse estilo nunca me atrairam, nem quando era adolescente. Entendo a sua revolta, mas por um lado foi bom porque mostrou que você amadureceu, evoluiu, sua visão de mundo foi ampliada e isso é uma grande conquista.

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  6. Olá, como vai? Feliz 2020, por sinal! Bom, sobre você ter relido "A Seleção", sabe, vejo muitos blogs fazendo postagens acerca dessa obra que sempre quis ler, mas ainda não tive oportunidade! Para falar a verdade, vejo opiniões completamente adversas, o que mais me atrai a curiosidade. Eu sou a favor de releituras e, inclusive, coloquei um vídeo no canal sobre minhas metas para esse ano. E uma delas é justamente fazer releituras, só que de nacionais. Acho importante voltarmos e analisarmos pontos, principalmente sobre questões que talvez no momento da primeira leitura não vimos, ou nos tenha faltado maturidade enquanto leitores para observarmos. Que venham muitas outras, em possibilidade, a você, em 2020! Abraços!

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  7. Eu sou daquela que julga o livro pela capa e eu fiquei super curiosa para ler todos os livros da coleção porque achei as capas MA-RA-VI-LHO-SAS!
    Eu tenho alguns livros na minha prateleira, eu sempre re-leio porque são os meus preferidos. Por ex: O Pequeno Príncipe, eu leio sempre que estou triste e depois fico bem.

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  8. Oi, Luh! Como vai você?
    Quando essa série tava bem hypada eu fiquei com vontade de ler, mesmo não me atraindo muito para romances no geral, só para saber porque tinha tanta gente comentando. Depois desse post, acho que vou só deixar passar. Também já não consigo ler livros e ignorar problemáticas socioculturais nas narrativas, e acho que isso é um grande reflexo da nossa formação como psicólogas: é importante desenvolvermos um pensamento crítico acerca das questões atuais da nossa sociedade. Achei interessante essa experiência de reler um livro de outra época da nossa vida, penso em tentar com alguns dos meus antigos favoritos para ver no que vai dar...
    Abraços,
    Literalize-se

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  9. Oi, Luana, tudo bem?
    Amei esse post e todos os pontos que você levantou, são assuntos que ainda precisam ser muito debatidos. É preciso falar sobre padrões e representatividade (e a falta dela) na literatura, ainda mais se tratando de um livro escrito para adolescentes. Não dá para ignorar ou relativizar esse tipo de problema de narrativa.
    Essa série está na minha meta de leitura faz bastante tempo, mas acho que justamente por se tratar de uma competição feminina por causa de um homem e todo mundo ser padrãozinho que eu tenho adiado essa leitura. Ainda quero ler, mas não está entre as minhas prioridades no momento.
    Abraços, Carol.
    Pequeno Unicórnio

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  10. Entendo esse sentimento. Eu tinha a coleção inteira desses livros, não me pergunte o que houve ahhaha. Acho incrível como existem obrar atemporais e outras que não funcionam para a fase adulta das nossas vidas.

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  11. Oie, não conhecia esse livro, amore... mas só na descrição eu já bufei e tive certeza de que não é para mim. Não é o tipo de leitura que eu aprecie. Me lembrou conto de fadas e bailes, fadas madrinhas e sapatinhos perdidos. Um bando de jovens donzelas em busca de um príncipe num mundo cor de rosas ou quase isso. Enfim, nem gosto de rosa.
    Mas, não se incomode com a sua menina de 15... é assim mesmo. Eu, me lembro que amei alguns livros que hoje ao reler, eu penso... oi? Sério, Lunna? rs E quer saber, eu acho isso o máximo.


    bacio

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  12. Ai, Luh, que bonito você abraçando a Luzinha de 15 anos como alguém que precisava abrir a mente, mas ainda assim cheia de carinho sabendo que "ela" estava fazendo o melhor com o que tinha. Isso é TÃO IMPORTANTE! Tenho orgulho da Luh de AGORA por isso.

    Eu li os dois primeiros livros da série, mas não tive estômago pro terceiro... Ao contrário de você eu já tinha bem uns "vinte e poucos" nas costas e conseguia absorver esses aspectos da história. Esse "falso empoderamento" da America era o que mais me irritava, lembro que ela terminou o primeiro livro falando "azar o duzomi, vou focar em mim!" e aí quando começava o segundo, 2 segundos depois, estava mergulhadíssima no dilema de se decidir entre eles de novo. Não entendi um pouco direito, hahahahah!

    É até meio controverso, eu normalmente defendo muito "todo tipo de leitura", mas acho que há ressalvas nessa história também. Claro que literatura infantil e juvenil são MEGA importantes e acho que a gente tem que incentiva-las ao invés de fazer como muita gente que menospreza (e falo do "lado de cá", também, como autora de um livro jovem adulto de romance), só que tenho um problema com o "a qualquer preço" também. Quando a saga Crepúsculo explodiu, por exemplo, eu tava na faculdade e li os livros todos porque minha irmã foi mega fã... Na minha cabeça era TÃO PROBLEMÁTICO adolescentes tendo aquilo como referência, sabe? O "me ame ou me mato", a disposição em depender financeiramente do pai do namorado para toda eternidade, o sexo dolorido como o dia mais feliz da vida da personagem, tudo. Sei que foi o primeiro livro de muita gente, assim como A Seleção, e que as pessoas foram lendo outras coisas a partir daí, mas sei lá, tanto livro jovem mais mente aberta, mesmo sem problematizar diretamente as coisas, por aí, precisa ser esses?
    Acho que sou meio chata, hahahaha!

    Enfim, em resumo, eu concordo com você em gênero, número, grau, tudo!

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  13. Confesso que a minha mãe já me ofereceu a coleção e eu não quis por não ser o meu tipo de leitura favorita, mas depois que eu soube que ia ser uma adaptação. Pensei em da uma chance a ele, juro que se eu ler, não vou me basear na opinião de ninguém (digo pq sei que tem pessoas que fazem isso). É possível que na hora de adaptar para filme, algumas coisas vão mudar.

    Um beijão!

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  14. Oi :) Eu adorei, de verdade tudo o que tu escreveu! Raras são as pessoas que conseguem apontar os erros publicamente, sem medo dos julgamentos. Não gosto de livros assim, que não acrescentam em nada e ainda por cima não me representam em nada. Caso tu tenha lido outro livro e hoje esteja vendo ele de uma maneira diferente, posta aqui pra nós. Beijos

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  15. Que legal! É assim que a gente vê o quanto a gente mudou e os conceitos na nossa cabeça se transformaram. Achei muito legal você comentar sobre pessoas padrao que você não tinha notado antes.

    Beijos, Gi
    www.blogdicasdagi.com.br

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  16. Ai eu tenho um carinho enorme por essa série de livros! Amo tanto, foi um dos primeiros livros que eu li na vida e que me fizerem chorar lendo pela primeira vez. Quando eu li pela primeira vez eu tinha mais ou menos 12 anos. Não sei como eu pensaria sobre essa saga lendo ela agora. Amei a foto e o post❤️

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